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A difícil arte de não fazer nada Não fazer nada é um poço de insights sobre a nossa vida e o que queremos. Descubra como se permitir mais!

 

Foto: nihonbeauty

Esse gato sabe do que eu estou falando.

 

A questão é que tem um tempo que eu não faço nada. Umas duas semanas, quase três. E pensei em vir aqui reportar a vocês que não é fácil.

 

Ok, não me odeiem. Não vim me gabar nem tirar onda com a cara de vocês, pobres pessoas ocupadas até o pescoço. De jeito nenhum. Quando eu digo que não é fácil, eu digo com toda a sinceridade do meu coração. Não é fácil esse negócio de ser desocupado, porque a gente não tá preparado psicologicamente para lidar com isso. Somos formiguinhas operárias e qualquer coisa diferente dessa lógica nos paralisa.

 

Um exemplo: quando eu me descobri desempregada, por razão de uma grande conta perdida pela empresa em que eu trabalhava, eu não senti raiva. Nem desespero. Nenhum sentimento ruim perpassou meu coração. Eu me senti bem com a decisão. Feliz, até. “Ninguém pode passar a vida toda em um lugar só”, pensei. E acho que é mesmo verdade, precisamos de um pouco de quebra de rotina, de vez em quando, para mexer com nossos eixos e nos colocar no caminho certo. Entretanto, eu não estava preparada. Não estava preparada para os dias olhando para o teto e me sentindo profundamente culpada.

 

Culpada de quê, exatamente, eu não sei. Ou sei: “eu deveria estar fazendo alguma coisa” é o pensamento que passa na minha cabeça, repetidamente. Ok, eu não posso trabalhar, então eu deveria estar limpando a casa, cozinhando almoço pra uma semana, atualizando o blog todos os dias, passando ferro nas roupas e, finalmente, me livrando da bagunça daquele quarto. Eu deveria estudar francês, organizar o roteiro da nossa próxima viagem, ler os livros que estão na minha estante há tanto tempo, lavar a louça, reorganizar a despensa, colocar a roupa limpa no guarda-roupa. Eu deveria estar fazendo alguma coisa, não deveria? “O trabalho enobrece o homem” e “Tempo é dinheiro”, todo mundo sabe. Então o que faço aqui, jogada no sofá, olhando para o nada?

 

A realidade, meus amigos, é que precisamos de tempo. Um tempo mesmo, para fazer absolutamente nada. Para esvaziar as ideias, pensar na vida, olhar pra frente. Os italianos já diziam: esse é o dolce far niente. Mas não existe essa expressão na nossa cultura. Por mais engraçadinhos que sejamos, não fazer nada não tem nenhum aspecto positivo no nosso linguajar. Você tem que ser útil, você tem que fazer algo. Ok, certo, não discordo de jeito nenhum. Mas será que precisamos ser assim o tempo todo? Será que não temos direito à doçura de não fazer nada, sem que a culpa apareça para estragar toda a festa? Será que esse tempo off não é algo que todos nós precisamos saber aproveitar, ao invés de enfiar 800 milhões de interações nas nossas 24h existentes?

 

Nossos fins de semana, nossas férias, nossos períodos de desemprego, qualquer tempo livre está cheio dessa culpa ridícula. “Temos que fazer algo de útil com nosso tempo”, se desesperam as abelhinhas operárias, enquanto arranjam uma pós para comer todo o período do sábado ou limpam a casa inteira no domingo. Ótimo, gente, todas essas coisas precisam ser feitas. Mas: o tempo livre também é importante. Ao contrário do que se prega por aí, é completamente aceitável, humano e decente fazer absolutamente nada em alguns períodos. Não, você não é inútil. Não, você não é um preguiçoso. Não, você não é um sem rumo. Você é apenas uma pessoa que quer tem um tempo para fazer absolutamente nada.

 

Eu realmente acho incrível que alguém tenha que chegar e nos dizer que é ok estar desocupado de vez em quando, mas aparentemente é necessário, certo? Nós nos cobramos demais, o tempo todo. Tempo é dinheiro e cada minutinho que você perde por aí é dinheiro que deixou de entrar na sua conta bancária. Nossa imagem, nosso crescimento na sociedade é muito importante para nós. Porém, eis uma coisa que também é importante: você. Esse tudo aí que mora dentro desse corpo. E isso é algo que a gente valoriza menos e menos, a cada dia que passa. E quando você menos espera você nem sabe mais quem é você. O que você quer. E se era mesmo aquele ônibus que você deveria pegar. E quem é que está tomando as decisões da sua vida. Pois é, mas quando foi mesmo que você teve aquele date consigo mesmo? Quando foi que você fez nada pela última vez?

 

Não fazer nada é um poço de insights sobre a nossa vida e o que queremos, porque estamos ali, com a gente e mais ninguém. Vamos jogar a culpa pela janela e considerar esse um tempo para se resetar. Para simplesmente estar presente naquele momento e nada mais. Para acalmar a mente e escutar o coração. Libere esse espacinho na sua agenda pra você mesma. Você trabalhou o suficiente, as roupas podem ficar mais um dia sem ser guardadas. Mas você não pode passar mais um dia sem escutar sem coração.


AMANDA ARRUDA

25 anos e taurina da gema. Mais perdida que cego em tiroteio, mas segue vivendo como se soubesse de tudo e não fosse cair no próximo buraco a qualquer momento. Gosta de perseguir as grandes (e pequenas) verdades da vida e depois contar tudo no seu blog.

 

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